Telegramas
(26 de Junho)
Um telegrama conta-nos que alguns clavinoteiros de Canavieiras (Bahia) foram a uma vila próxima e arrebataram duas moças. A gente da vila ia armar-se e assaltar Canavieiras.
Parece nada, e é Homero; é ainda mais que Homero, que só contou o rapto de uma Helena: aqui são duas.
Essa luta obscura, escondida no interior da Bahia, foi singular contraste com a outra que se trava no Rio Grande do Sul, onde a causa não é uma, nem duas Helenas, mas um só governo político.
Apuradas as contas, vem a dar nesta velha verdade que o amor e o poder são as duas forças principais da terra.
Duas vilas disputam a posse de duas moças; Bagé luta com Porto Alegre pelo direito do mando. É a mesma Ilíada.
Dizem telegramas de S. Paulo que foi ali achado, em certa casa que se demolia, um esqueleto algemado.
Não tenho amor a esqueletos; mas este esqueleto algemado diz-me alguma cousa, e é difícil que eu o mandasse embora, sem três ou quatro perguntas.
Talvez ele me contasse uma história grave, longa e naturalmente triste, por-que as algemas não são alegres.
Alegres eram umas máscaras de lata que vi em pequeno na cara de escravos dados à cachaça; alegres ou grotescas, não sei bem, porque lá vão muitos anos, e eu era tão criança, que não distinguia bem.
A verdade é que as máscaras faziam rir, mais que as do recente carnaval. O ferro das algemas, sendo mais duro que a lata, a história devia ser mais sombria.
Há um telegrama… Diabo! acabou-se o espaço, e ainda aqui tenho uma dúzia. Cesta com eles!
Vão para onde foi a questão do benzimento da bandeira, os guarda-livros que fogem levando a caixa (outro telegrama), e o resto dos restos, que não dura mais de uma semana, nem tanto.
Vão para onde já foi esta crônica. Fale o leitor a sua verdade. E diga-me se lhe ficou alguma cousa do que acabou de ler.
Talvez uma só, a palavra clavinoteiros, que parece exprimir um costume ou um ofício. Cá vai para o vocabulário.
(Fonte: www.dominiopublico.gov.br)