Tuesday, September 16, 2008

Debêntures


Machado de Assis*

 

Esta semana furtaram a um senhor que ia pela rua mil debêntures; ele providenciou de modo que pôde salvá-los. Confesso que não acreditei na notícia, a princípio; mas o respeito em que fui educado para com a letra redonda fez-me acabar de crer que se não fosse verdade não seria impresso.

Não creio em verdades manuscritas. Os próprios versos, que só se fazem por medida, parecem errados, quando escritos à mão. A razão por que muitos moços enganam as moças e vice-versa é escreverem as suas cartas, e entregá-las de mão a mão, ou pela criada, ou pela prima ou por qualquer outro modo, que no meu tempo, era ainda inédito. Quem não engana é o namorado da folha pública:

“Querida X, não foste hoje ao lugar do costume; esperei até às três horas. Responde ao teu Z.”

E a namorada: “Querido Z. Não fui ontem por motivos que te direi à vista. Sábado, com certeza, à hora costumada; não faltes. Tua X”.

Isto é sério, claro, exato, cordial. A razão que me fez duvidar a princípio foi a noção que me ficou dos negócios de debêntures.

Quando este nome começou a andar de boca em boca, até fazer-se um coro universal, veio ter comigo um chaparreiro aqui da vizinhança e confessou que, não sabendo ler, queria que lhe dissesse se aqueles papéis valiam alguma coisa. Eu, verdadeiro eco da opinião nacional, respondi que não havia nada melhor, ele pegou nas economias e comprou uma centena de delas.

Cresceu ainda o preço e ele quis vendê-las; mas eu acudi a tempo de suspender esse desastre. Vender o quê? Deixasse estar os papéis que o preço ia subir por aí além. O homem confiou e esperou.

Daí a tempo ouvi um rumor; eram as debêntures que caíam, caíam, caíam… Ele veio procurar-me, debulhado em lágrimas; ainda o fortaleci com uma ou duas parábolas, até que os dias correram, e o desgraçado ficou com os papéis na mão.

Consolou-se um pouco quando eu lhe disse que metade da população não tinha outra atitude.

Pouco tempo depois (vejam o que é o amor a estas cousas!) veio ter comigo e proferiu estas palavras:

— Eu já agora perdi quase tudo o que tinha com as tais debêntures, mas ficou-me sempre um cobrinho no fundo do baú, e como agora ouço falar muito em habeas corpus, vinha, sim, vinha perguntar-lhe se esses títulos são bons, e se estão caros ou baratos.

— Não são títulos.

— Mas o nome também é estrangeiro.

— Sim, mas nem por ser estrangeiro, é título; aquele doutor que ali mora defronte é estrangeiro e não é título.

—Isso é verdade. Então parece-lhe que os habeas corpus não são papéis?

— Papéis são; mas são outros papéis.

A idéia de debênture ficou sendo para mim a mesma cousa que nada, de modo que não compreendia que um senhor andasse com mil debêntures na algibeira, que outro as furtasse, e que ele corresse em busca do ladrão.

Acreditei por estar impresso. Depois mostraram–me a lista das cotações. Vi que não se vendem tantas como outrora, nem pelo preço antigo, mas há algum negociozinho, pequeno, sobre alguns lotes. Quem sabe o que elas serão ainda algum dia?

Tudo tem altos e baixos. O certo é que mudei de opinião. No dia seguinte, depois do almoço, tirei da gaveta algumas centenas de mil-réis, e caminhei para a Bolsa, encomendando-me (é inútil dizê-lo ) ao Deus Abraão, Isaac e Jacó. Comprei um lote, a preço baixo, e particularmente prometi uma debênture de cera a S. Lucas, se me fizer ganhar um cobrinho grosso. Sei que é imitar aquele homem que, há dias, deu uma chave de cera a S. Pedro, por lhe haver deparado casa em que morasse; mas eu tenho outra razão.

Na semana passada falei de uns casais de pombas, que vivem na igreja da Cruz dos Militares, aos pés de S. João e S. Lucas. Uma delas, vendo-me passar, quando voltava da Bolsa, desferiu o vôo, e veio pousar-me no ombro; mostrou-se meio agastada com a publicação, mas acabou dizendo que naquela rua, tão perto dos bancos e da praça, tinham elas uma grande vantagem sobre todos os mortais.

Quaisquer que sejam os negócios, — arrulhou-me ao ouvido, — o câmbio para nós está sempre a 27.

Não peço outra cousa ao apóstolo; câmbio a 27 para mim como para elas, e terá a debênture de cera, com inscrições e alegorias. Veja que nem lhe peço a cura da tosse e do coriza que me afligem, desde algum tempo.

O meu talentoso amigo Dr. Pedro Américo disse outro dia na Câmara dos Deputados, propondo a criação de um teatro normal, que, por um milagre de higiene, todas as moléstias desaparecessem, “não haveria faculdade, nem artifícios de retórica capazes de convencer a ninguém das belezas da patologia nem da utilidade da terapêutica”.

Ah! meu caro amigo! Eu dou todas as belezas da patologia por um nariz livre e um peito desabafado. Creio na utilidade da terapêutica; mas que deliciosa cousa é não saber que ela existe, duvidar dela e até negá-la! Felizes os que podem respirar!

Bem-aventurados os que não tossem! Agora mesmo interrompi o que ia escrevendo para tossir; e, continuo a escrever de boca aberta para respirar. E falam-me em belezas da patologia… Francamente eu prefiro as belezas da Batalha de Avaí.

 

*Fonte: “A Semana” - www.dominiopublico.gov.br

 

 

Posted by JLT at 23:52:05

Debêntures


Machado de Assis*

Esta semana furtaram a um senhor que ia pela rua mil debêntures; ele

providenciou de modo que pôde salvá-los. Confesso que não acreditei na notícia, a

princípio; mas o respeito em que fui educado para com a letra redonda fez-me

acabar de crer que se não fosse verdade não seria impresso. Não creio em

verdades manuscritas. Os próprios versos, que só se fazem por medida, parecem

errados, quando escritos à mão. A razão por que muitos moços enganam as moças

e vice-versa é escreverem as suas cartas, e entregá-las de mão a mão, ou pela

criada, ou pela prima ou por qualquer outro modo, que no meu tempo, era ainda

inédito. Quem não engana é o namorado da folha pública; “Querida X, não foste hoje

ao lugar do costume; esperei até às três horas. Responde ao teu Z.” E a namorada

“Querido Z. Não fui ontem por motivos que te direi à vista. Sábado, com certeza, à

hora costumada; não faltes. Tua X”. Isto é sério, claro, exato, cordial.

A razão que me fez duvidar a princípio foi a noção que me ficou dos negócios

de debêntures. Quando este nome começou a andar de boca em boca, até fazer-se

um coro universal, veio ter comigo um chaparreiro aqui da vizinhança e confessou

que, não sabendo ler, queria que lhe dissesse se aqueles papéis valiam alguma

coisa. Eu, verdadeiro eco da opinião nacional, respondi que não havia nada melhor,

ele pegou nas economias e comprou uma centena delas. Cresceu ainda o preço

e ele quis vendê-las; mas eu acudi a tempo de suspender esse desastre. Vender o

quê? Deixasse estar os papéis que o preço ia subir por aí além. O homem confiou e

esperou. Daí a tempo ouvi um rumor; eram as debêntures que caíam, caíam,

caíam… Ele veio procurar-me, debulhado em lágrimas; ainda o fortaleci com uma ou

duas parábolas, até que os dias correram, e o desgraçado ficou com os papéis na

mão. Consolou-se um pouco quando eu lhe disse que metade da população não

tinha outra atitude.

Pouco tempo depois (vejam o que é o amor a estas cousas!) veio ter comigo

e proferiu estas palavras:

— Eu já agora perdi quase tudo o que tinha com as tais debêntures, mas

ficou-me sempre um cobrinho no fundo do baú, e como agora ouço falar muito em

habeas corpus, vinha, sim, vinha perguntar-lhe se esses títulos são bons, e se estão

caros ou baratos.

— Não são títulos.

— Mas o nome também é estrangeiro.

— Sim, mas nem por ser estrangeiro, é título; aquele doutor que ali mora

defronte é estrangeiro e não é título.

—Isso é verdade. Então parece-lhe que os habeas corpus não são papéis?

— Papéis são; mas são outros papéis.

A idéia de debênture ficou sendo para mim a mesma cousa que nada, de

modo que não compreendia que um senhor andasse com mil debêntures na

algibeira, que outro as furtasse, e que ele corresse em busca do ladrão. Acreditei por

estar impresso. Depois mostraram–me a lista das cotações. Vi que não se vendem

tantas como outrora, nem pelo preço antigo, mas há algum negociozinho, pequeno,

sobre alguns lotes. Quem sabe o que elas serão ainda algum dia? Tudo tem altos e

baixos.

O certo é que mudei de opinião. No dia seguinte, depois do almoço, tirei da

gaveta algumas centenas de mil-réis, e caminhei para a Bolsa, encomendando-me

(é inútil dizê-lo ) ao Deus Abraão, Isaac e Jacó. Comprei um lote, a preço baixo, e

particularmente prometi uma debênture de cera a S. Lucas, se me fizer ganhar um

cobrinho grosso. Sei que é imitar aquele homem que, há dias, deu uma chave de

cera a S. Pedro, por lhe haver deparado casa em que morasse; mas eu tenho outra

razão. Na semana passada falei de uns casais de pombas, que vivem na igreja da

Cruz dos Militares, aos pés de S. João e S. Lucas. Uma delas, vendo-me passar,

quando voltava da Bolsa, desferiu o vôo, e veio pousar-me no ombro; mostrou-se

meio agastada com a publicação, mas acabou dizendo que naquela rua, tão perto

dos bancos e da praça, tinham elas uma grande vantagem sobre todos os mortais.

Quaisquer que sejam os negócios, — arrulhou-me ao ouvido, — o câmbio para nós

está sempre a 27.

Não peço outra cousa ao apóstolo; câmbio a 27 para mim como para elas, e

terá a debênture de cera, com inscrições e alegorias. Veja que nem lhe peço a cura

da tosse e do coriza que me afligem, desde algum tempo. O meu talentoso amigo

Dr. Pedro Américo disse outro dia na Câmara dos Deputados, propondo a criação de

um teatro normal, que, por um milagre de higiene, todas as moléstias

desaparecessem, “não haveria faculdade, nem artifícios de retórica capazes de

convencer a ninguém das belezas da patologia nem da utilidade da terapêutica”. Ah!

meu caro amigo! Eu dou todas as belezas da patologia por um nariz livre e um peito

desabafado. Creio na utilidade da terapêutica; mas que deliciosa cousa é não saber

que ela existe, duvidar dela e até negá-la! Felizes os que podem respirar!

Bem-aventurados os que não tossem! Agora mesmo interrompi o que ia escrevendo para

tossir; e  continuo a escrever de boca aberta para respirar. E falam-me em belezas da

patologia… Francamente eu prefiro as belezas da Batalha de Avaí.

*Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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Posted by JLT at 00:46:27
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