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	<title>EscutaZé!Machado, 100 Anos</title>
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	<description>Crônicas publicadas no jornal A Semana por Machado de Assis</description>
	<pubDate>Tue, 16 Sep 2008 19:52:05 +0000</pubDate>
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		<title>Debêntures</title>
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		<comments>http://escutaze-machado.blog.com/2008/09/16/debentures/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 16 Sep 2008 19:52:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JLT</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[<p align="left"><font face="Verdana"><strong><br />
Machado de Assis*</strong></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana">&#160;</font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Esta semana furtaram a um senhor que ia pela rua mil debêntures; ele providenciou de modo que pôde salvá-los. Confesso que não acreditei na notícia, a princípio; mas o respeito em que fui educado para com a letra redonda fez-me acabar de crer que se não fosse verdade não seria impresso.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Não creio em verdades manuscritas. Os próprios versos, que só se fazem por medida, parecem errados, quando escritos à mão. A razão por que muitos moços enganam as moças e vice-versa é escreverem as suas cartas, e entregá-las de mão a mão, ou pela criada, ou pela prima ou por qualquer outro modo, que no meu tempo, era ainda inédito. Quem não engana é o namorado da folha pública:</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">"Querida X, não foste hoje ao lugar do costume; esperei até às três horas. Responde ao teu Z."</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">E a namorada: "Querido Z. Não fui ontem por motivos que te direi à vista. Sábado, com certeza, à hora costumada; não faltes. Tua X".</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Isto é sério, claro, exato, cordial. A razão que me fez duvidar a princípio foi a noção que me ficou dos negócios de debêntures.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Quando este nome começou a andar de boca em boca, até fazer-se um coro universal, veio ter comigo um chaparreiro aqui da vizinhança e confessou que, não sabendo ler, queria que lhe dissesse se aqueles papéis valiam alguma coisa. Eu, verdadeiro eco da opinião nacional, respondi que não havia nada melhor, ele pegou nas economias e comprou uma centena de delas.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Cresceu ainda o preço e ele quis vendê-las; mas eu acudi a tempo de suspender esse desastre. Vender o quê? Deixasse estar os papéis que o preço ia subir por aí além. O homem confiou e esperou.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Daí a tempo ouvi um rumor; eram as debêntures que caíam, caíam, caíam... Ele veio procurar-me, debulhado em lágrimas; ainda o fortaleci com uma ou duas parábolas, até que os dias correram, e o desgraçado ficou com os papéis na mão.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Consolou-se um pouco quando eu lhe disse que metade da população não tinha outra atitude.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Pouco tempo depois (vejam o que é o amor a estas cousas!) veio ter comigo e proferiu estas palavras:</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana"><span style="COLOR: #111111"><span style="COLOR: #111111"><font color="#666666">— Eu já agora perdi quase tudo o que tinha com as tais debêntures, mas ficou-me sempre um cobrinho no fundo do baú, e como agora ouço falar muito em</font> <font color="#666666">habeas corpus, vinha, sim, vinha perguntar-lhe se esses títulos são bons, e se estão caros ou baratos.</font></span></span></span></font></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">— Não são títulos.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">— Mas o nome também é estrangeiro.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">— Sim, mas nem por ser estrangeiro, é título; aquele doutor que ali mora defronte é estrangeiro e não é título.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">—Isso é verdade. Então parece-lhe que os habeas corpus não são papéis?</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">— Papéis são; mas são outros papéis.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">A idéia de debênture ficou sendo para mim a mesma cousa que nada, de modo que não compreendia que um senhor andasse com mil debêntures na algibeira, que outro as furtasse, e que ele corresse em busca do ladrão.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Acreditei por estar impresso. Depois mostraram--me a lista das cotações. Vi que não se vendem tantas como outrora, nem pelo preço antigo, mas há algum negociozinho, pequeno, sobre alguns lotes. Quem sabe o que elas serão ainda algum dia?</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Tudo tem altos e baixos. O certo é que mudei de opinião. No dia seguinte, depois do almoço, tirei da gaveta algumas centenas de mil-réis, e caminhei para a Bolsa, encomendando-me (é inútil dizê-lo ) ao Deus Abraão, Isaac e Jacó. Comprei um lote, a preço baixo, e particularmente prometi uma debênture de cera a S. Lucas, se me fizer ganhar um cobrinho grosso. Sei que é imitar aquele homem que, há dias, deu uma chave de cera a S. Pedro, por lhe haver deparado casa em que morasse; mas eu tenho outra razão.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Na semana passada falei de uns casais de pombas, que vivem na igreja da Cruz dos Militares, aos pés de S. João e S. Lucas. Uma delas, vendo-me passar, quando voltava da Bolsa, desferiu o vôo, e veio pousar-me no ombro; mostrou-se meio agastada com a publicação, mas acabou dizendo que naquela rua, tão perto dos bancos e da praça, tinham elas uma grande vantagem sobre todos os mortais.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Quaisquer que sejam os negócios, — arrulhou-me ao ouvido, — o câmbio para nós está sempre a 27.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Não peço outra cousa ao apóstolo; câmbio a 27 para mim como para elas, e terá a debênture de cera, com inscrições e alegorias. Veja que nem lhe peço a cura da tosse e do coriza que me afligem, desde algum tempo.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">O meu talentoso amigo Dr. Pedro Américo disse outro dia na Câmara dos Deputados, propondo a criação de um teatro normal, que, por um milagre de higiene, todas as moléstias desaparecessem, "não haveria faculdade, nem artifícios de retórica capazes de convencer a ninguém das belezas da patologia nem da utilidade da terapêutica".</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Ah! meu caro amigo! Eu dou todas as belezas da patologia por um nariz livre e um peito desabafado. Creio na utilidade da terapêutica; mas que deliciosa cousa é não saber que ela existe, duvidar dela e até negá-la! Felizes os que podem respirar!</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Bem-aventurados os que não tossem! Agora mesmo interrompi o que ia escrevendo para tossir; e, continuo a escrever de boca aberta para respirar. E falam-me em belezas da patologia... Francamente eu prefiro as belezas da Batalha de Avaí.</span></p>
<p align="left">&#160;</p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">*Fonte: "A Semana" -</span> <a href="http://www.dominiopublico.gov.br/"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">www.dominiopublico.gov.br</span></a><br /></p>
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<p align="left"><font face="Verdana"><strong><br />
Machado de Assis*</strong></font></p>
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<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Esta semana furtaram a um senhor que ia pela rua mil debêntures; ele providenciou de modo que pôde salvá-los. Confesso que não acreditei na notícia, a princípio; mas o respeito em que fui educado para com a letra redonda fez-me acabar de crer que se não fosse verdade não seria impresso.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Não creio em verdades manuscritas. Os próprios versos, que só se fazem por medida, parecem errados, quando escritos à mão. A razão por que muitos moços enganam as moças e vice-versa é escreverem as suas cartas, e entregá-las de mão a mão, ou pela criada, ou pela prima ou por qualquer outro modo, que no meu tempo, era ainda inédito. Quem não engana é o namorado da folha pública:</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">&#8220;Querida X, não foste hoje ao lugar do costume; esperei até às três horas. Responde ao teu Z.&#8221;</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">E a namorada: &#8220;Querido Z. Não fui ontem por motivos que te direi à vista. Sábado, com certeza, à hora costumada; não faltes. Tua X&#8221;.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Isto é sério, claro, exato, cordial. A razão que me fez duvidar a princípio foi a noção que me ficou dos negócios de debêntures.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Quando este nome começou a andar de boca em boca, até fazer-se um coro universal, veio ter comigo um chaparreiro aqui da vizinhança e confessou que, não sabendo ler, queria que lhe dissesse se aqueles papéis valiam alguma coisa. Eu, verdadeiro eco da opinião nacional, respondi que não havia nada melhor, ele pegou nas economias e comprou uma centena de delas.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Cresceu ainda o preço e ele quis vendê-las; mas eu acudi a tempo de suspender esse desastre. Vender o quê? Deixasse estar os papéis que o preço ia subir por aí além. O homem confiou e esperou.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Daí a tempo ouvi um rumor; eram as debêntures que caíam, caíam, caíam&#8230; Ele veio procurar-me, debulhado em lágrimas; ainda o fortaleci com uma ou duas parábolas, até que os dias correram, e o desgraçado ficou com os papéis na mão.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Consolou-se um pouco quando eu lhe disse que metade da população não tinha outra atitude.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Pouco tempo depois (vejam o que é o amor a estas cousas!) veio ter comigo e proferiu estas palavras:</span></font></p>
<p align="left"><font face="Verdana"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana"><span style="COLOR: #111111"><span style="COLOR: #111111"><font color="#666666">— Eu já agora perdi quase tudo o que tinha com as tais debêntures, mas ficou-me sempre um cobrinho no fundo do baú, e como agora ouço falar muito em</font> <font color="#666666">habeas corpus, vinha, sim, vinha perguntar-lhe se esses títulos são bons, e se estão caros ou baratos.</font></span></span></span></font></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">— Não são títulos.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">— Mas o nome também é estrangeiro.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">— Sim, mas nem por ser estrangeiro, é título; aquele doutor que ali mora defronte é estrangeiro e não é título.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">—Isso é verdade. Então parece-lhe que os habeas corpus não são papéis?</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">— Papéis são; mas são outros papéis.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">A idéia de debênture ficou sendo para mim a mesma cousa que nada, de modo que não compreendia que um senhor andasse com mil debêntures na algibeira, que outro as furtasse, e que ele corresse em busca do ladrão.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Acreditei por estar impresso. Depois mostraram&#8211;me a lista das cotações. Vi que não se vendem tantas como outrora, nem pelo preço antigo, mas há algum negociozinho, pequeno, sobre alguns lotes. Quem sabe o que elas serão ainda algum dia?</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Tudo tem altos e baixos. O certo é que mudei de opinião. No dia seguinte, depois do almoço, tirei da gaveta algumas centenas de mil-réis, e caminhei para a Bolsa, encomendando-me (é inútil dizê-lo ) ao Deus Abraão, Isaac e Jacó. Comprei um lote, a preço baixo, e particularmente prometi uma debênture de cera a S. Lucas, se me fizer ganhar um cobrinho grosso. Sei que é imitar aquele homem que, há dias, deu uma chave de cera a S. Pedro, por lhe haver deparado casa em que morasse; mas eu tenho outra razão.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Na semana passada falei de uns casais de pombas, que vivem na igreja da Cruz dos Militares, aos pés de S. João e S. Lucas. Uma delas, vendo-me passar, quando voltava da Bolsa, desferiu o vôo, e veio pousar-me no ombro; mostrou-se meio agastada com a publicação, mas acabou dizendo que naquela rua, tão perto dos bancos e da praça, tinham elas uma grande vantagem sobre todos os mortais.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Quaisquer que sejam os negócios, — arrulhou-me ao ouvido, — o câmbio para nós está sempre a 27.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Não peço outra cousa ao apóstolo; câmbio a 27 para mim como para elas, e terá a debênture de cera, com inscrições e alegorias. Veja que nem lhe peço a cura da tosse e do coriza que me afligem, desde algum tempo.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">O meu talentoso amigo Dr. Pedro Américo disse outro dia na Câmara dos Deputados, propondo a criação de um teatro normal, que, por um milagre de higiene, todas as moléstias desaparecessem, &#8220;não haveria faculdade, nem artifícios de retórica capazes de convencer a ninguém das belezas da patologia nem da utilidade da terapêutica&#8221;.</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Ah! meu caro amigo! Eu dou todas as belezas da patologia por um nariz livre e um peito desabafado. Creio na utilidade da terapêutica; mas que deliciosa cousa é não saber que ela existe, duvidar dela e até negá-la! Felizes os que podem respirar!</span></p>
<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">Bem-aventurados os que não tossem! Agora mesmo interrompi o que ia escrevendo para tossir; e, continuo a escrever de boca aberta para respirar. E falam-me em belezas da patologia&#8230; Francamente eu prefiro as belezas da Batalha de Avaí.</span></p>
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<p align="left"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">*Fonte: &#8220;A Semana&#8221; -</span> <a href="http://www.dominiopublico.gov.br/"><span style="COLOR: #111111; FONT-FAMILY: Verdana">www.dominiopublico.gov.br</span></a></p>
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		<title>Debêntures</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Sep 2008 20:46:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JLT</dc:creator>
		
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Machado de Assis*</strong><br />
<br />
<span style="COLOR: #111111">Esta semana furtaram a um senhor que ia pela rua mil debêntures; ele</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">providenciou de modo que pôde salvá-los. Confesso que não acreditei na notícia, a</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">princípio; mas o respeito em que fui educado para com a letra redonda fez-me</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">acabar de crer que se não fosse verdade não seria impresso. Não creio em</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">verdades manuscritas. Os próprios versos, que só se fazem por medida, parecem</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">errados, quando escritos à mão. A razão por que muitos moços enganam as moças</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">e vice-versa é escreverem as suas cartas, e entregá-las de mão a mão, ou pela</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">criada, ou pela prima ou por qualquer outro modo, que no meu tempo, era ainda</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">inédito. Quem não engana é o namorado da folha pública; "Querida X, não foste hoje</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">ao lugar do costume; esperei até às três horas. Responde ao teu Z." E a namorada</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">"Querido Z. Não fui ontem por motivos que te direi à vista. Sábado, com certeza, à</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">hora costumada; não faltes. Tua X". Isto é sério, claro, exato, cordial.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">A razão que me fez duvidar a princípio foi a noção que me ficou dos negócios</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">de debêntures. Quando este nome começou a andar de boca em boca, até fazer-se</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">um coro universal, veio ter comigo um chaparreiro aqui da vizinhança e confessou</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">que, não sabendo ler, queria que lhe dissesse se aqueles papéis valiam alguma</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">coisa. Eu, verdadeiro eco da opinião nacional, respondi que não havia nada melhor,</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">ele pegou nas economias e comprou uma centena&#160;delas. Cresceu ainda o preço</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">e ele quis vendê-las; mas eu acudi a tempo de suspender esse desastre. Vender o</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">quê? Deixasse estar os papéis que o preço ia subir por aí além. O homem confiou e</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">esperou. Daí a tempo ouvi um rumor; eram as debêntures que caíam, caíam,</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">caíam... Ele veio procurar-me, debulhado em lágrimas; ainda o fortaleci com uma ou</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">duas parábolas, até que os dias correram, e o desgraçado ficou com os papéis na</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">mão. Consolou-se um pouco quando eu lhe disse que metade da população não</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">tinha outra atitude.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">Pouco tempo depois (vejam o que é o amor a estas cousas!) veio ter comigo</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">e proferiu estas palavras:</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">— Eu já agora perdi quase tudo o que tinha com as tais debêntures, mas</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">ficou-me sempre um cobrinho no fundo do baú, e como agora ouço falar muito em</span></font></p>
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<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">— Não são títulos.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">— Mas o nome também é estrangeiro.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">— Sim, mas nem por ser estrangeiro, é título; aquele doutor que ali mora</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">defronte é estrangeiro e não é título.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">—Isso é verdade. Então parece-lhe que os habeas corpus não são papéis?</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">— Papéis são; mas são outros papéis.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">A idéia de debênture ficou sendo para mim a mesma cousa que nada, de</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">modo que não compreendia que um senhor andasse com mil debêntures na</span></font></font></p>
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<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">estar impresso. Depois mostraram--me a lista das cotações. Vi que não se vendem</span></font></font></p>
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<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">sobre alguns lotes. Quem sabe o que elas serão ainda algum dia? Tudo tem altos e</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">baixos.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">O certo é que mudei de opinião. No dia seguinte, depois do almoço, tirei da</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">gaveta algumas centenas de mil-réis, e caminhei para a Bolsa, encomendando-me</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">(é inútil dizê-lo ) ao Deus Abraão, Isaac e Jacó. Comprei um lote, a preço baixo, e</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">particularmente prometi uma debênture de cera a S. Lucas, se me fizer ganhar um</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">cobrinho grosso. Sei que é imitar aquele homem que, há dias, deu uma chave de</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">cera a S. Pedro, por lhe haver deparado casa em que morasse; mas eu tenho outra</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">razão. Na semana passada falei de uns casais de pombas, que vivem na igreja da</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">Cruz dos Militares, aos pés de S. João e S. Lucas. Uma delas, vendo-me passar,</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">quando voltava da Bolsa, desferiu o vôo, e veio pousar-me no ombro; mostrou-se</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">meio agastada com a publicação, mas acabou dizendo que naquela rua, tão perto</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">dos bancos e da praça, tinham elas uma grande vantagem sobre todos os mortais.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">Quaisquer que sejam os negócios, — arrulhou-me ao ouvido, — o câmbio para nós</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">está sempre a 27.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">Não peço outra cousa ao apóstolo; câmbio a 27 para mim como para elas, e</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">terá a debênture de cera, com inscrições e alegorias. Veja que nem lhe peço a cura</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">da tosse e do coriza que me afligem, desde algum tempo. O meu talentoso amigo</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">Dr. Pedro Américo disse outro dia na Câmara dos Deputados, propondo a criação de</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">um teatro normal, que, por um milagre de higiene, todas as moléstias</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">desaparecessem, "não haveria faculdade, nem artifícios de retórica capazes de</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">convencer a ninguém das belezas da patologia nem da utilidade da terapêutica". Ah!</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">meu caro amigo! Eu dou todas as belezas da patologia por um nariz livre e um peito</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">desabafado. Creio na utilidade da terapêutica; mas que deliciosa cousa é não saber</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">que ela existe, duvidar dela e até negá-la! Felizes os que podem respirar!<br />
<br />
Bem-aventurados</span> <span style="COLOR: #111111">os que não tossem! Agora mesmo interrompi o que ia escrevendo para</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">tossir; e &#160;continuo a escrever de boca aberta para respirar. E falam-me em belezas da</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">patologia... Francamente eu prefiro as belezas da Batalha de Avaí.<br />
<br /></span><br />
<br />
<br />
*Fonte: www.dominiopublico.gov.br<br />
<br />
<br />
<strong><a href="http://escutaze.blog.com"><span style="COLOR: #ff0000">Voltar para a página principal do EscutaZé!</span></a><br />
<br />
<br /></strong></font></font></p>

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>
<p align="left"><font face="Arial"><strong><br />
Machado de Assis*</strong></p>
<p><span style="COLOR: #111111">Esta semana furtaram a um senhor que ia pela rua mil debêntures; ele</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">providenciou de modo que pôde salvá-los. Confesso que não acreditei na notícia, a</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">princípio; mas o respeito em que fui educado para com a letra redonda fez-me</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">acabar de crer que se não fosse verdade não seria impresso. Não creio em</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">verdades manuscritas. Os próprios versos, que só se fazem por medida, parecem</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">errados, quando escritos à mão. A razão por que muitos moços enganam as moças</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">e vice-versa é escreverem as suas cartas, e entregá-las de mão a mão, ou pela</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">criada, ou pela prima ou por qualquer outro modo, que no meu tempo, era ainda</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">inédito. Quem não engana é o namorado da folha pública; &#8220;Querida X, não foste hoje</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">ao lugar do costume; esperei até às três horas. Responde ao teu Z.&#8221; E a namorada</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">&#8220;Querido Z. Não fui ontem por motivos que te direi à vista. Sábado, com certeza, à</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">hora costumada; não faltes. Tua X&#8221;. Isto é sério, claro, exato, cordial.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">A razão que me fez duvidar a princípio foi a noção que me ficou dos negócios</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">de debêntures. Quando este nome começou a andar de boca em boca, até fazer-se</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">um coro universal, veio ter comigo um chaparreiro aqui da vizinhança e confessou</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">que, não sabendo ler, queria que lhe dissesse se aqueles papéis valiam alguma</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">coisa. Eu, verdadeiro eco da opinião nacional, respondi que não havia nada melhor,</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">ele pegou nas economias e comprou uma centena&#160;delas. Cresceu ainda o preço</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">e ele quis vendê-las; mas eu acudi a tempo de suspender esse desastre. Vender o</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">quê? Deixasse estar os papéis que o preço ia subir por aí além. O homem confiou e</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">esperou. Daí a tempo ouvi um rumor; eram as debêntures que caíam, caíam,</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">caíam&#8230; Ele veio procurar-me, debulhado em lágrimas; ainda o fortaleci com uma ou</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">duas parábolas, até que os dias correram, e o desgraçado ficou com os papéis na</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">mão. Consolou-se um pouco quando eu lhe disse que metade da população não</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">tinha outra atitude.</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">Pouco tempo depois (vejam o que é o amor a estas cousas!) veio ter comigo</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">e proferiu estas palavras:</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">— Eu já agora perdi quase tudo o que tinha com as tais debêntures, mas</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">ficou-me sempre um cobrinho no fundo do baú, e como agora ouço falar muito em</span></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">habeas corpus, vinha, sim, vinha perguntar-lhe se esses títulos são bons, e se estão</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">caros ou baratos.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">— Não são títulos.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">— Mas o nome também é estrangeiro.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">— Sim, mas nem por ser estrangeiro, é título; aquele doutor que ali mora</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">defronte é estrangeiro e não é título.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">—Isso é verdade. Então parece-lhe que os habeas corpus não são papéis?</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">— Papéis são; mas são outros papéis.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">A idéia de debênture ficou sendo para mim a mesma cousa que nada, de</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">modo que não compreendia que um senhor andasse com mil debêntures na</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">algibeira, que outro as furtasse, e que ele corresse em busca do ladrão. Acreditei por</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">estar impresso. Depois mostraram&#8211;me a lista das cotações. Vi que não se vendem</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">tantas como outrora, nem pelo preço antigo, mas há algum negociozinho, pequeno,</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">sobre alguns lotes. Quem sabe o que elas serão ainda algum dia? Tudo tem altos e</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">baixos.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">O certo é que mudei de opinião. No dia seguinte, depois do almoço, tirei da</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">gaveta algumas centenas de mil-réis, e caminhei para a Bolsa, encomendando-me</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">(é inútil dizê-lo ) ao Deus Abraão, Isaac e Jacó. Comprei um lote, a preço baixo, e</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">particularmente prometi uma debênture de cera a S. Lucas, se me fizer ganhar um</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">cobrinho grosso. Sei que é imitar aquele homem que, há dias, deu uma chave de</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">cera a S. Pedro, por lhe haver deparado casa em que morasse; mas eu tenho outra</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">razão. Na semana passada falei de uns casais de pombas, que vivem na igreja da</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">Cruz dos Militares, aos pés de S. João e S. Lucas. Uma delas, vendo-me passar,</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">quando voltava da Bolsa, desferiu o vôo, e veio pousar-me no ombro; mostrou-se</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">meio agastada com a publicação, mas acabou dizendo que naquela rua, tão perto</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">dos bancos e da praça, tinham elas uma grande vantagem sobre todos os mortais.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">Quaisquer que sejam os negócios, — arrulhou-me ao ouvido, — o câmbio para nós</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">está sempre a 27.</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">Não peço outra cousa ao apóstolo; câmbio a 27 para mim como para elas, e</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">terá a debênture de cera, com inscrições e alegorias. Veja que nem lhe peço a cura</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">da tosse e do coriza que me afligem, desde algum tempo. O meu talentoso amigo</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">Dr. Pedro Américo disse outro dia na Câmara dos Deputados, propondo a criação de</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">um teatro normal, que, por um milagre de higiene, todas as moléstias</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">desaparecessem, &#8220;não haveria faculdade, nem artifícios de retórica capazes de</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">convencer a ninguém das belezas da patologia nem da utilidade da terapêutica&#8221;. Ah!</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">meu caro amigo! Eu dou todas as belezas da patologia por um nariz livre e um peito</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">desabafado. Creio na utilidade da terapêutica; mas que deliciosa cousa é não saber</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">que ela existe, duvidar dela e até negá-la! Felizes os que podem respirar!</p>
<p>Bem-aventurados</span> <span style="COLOR: #111111">os que não tossem! Agora mesmo interrompi o que ia escrevendo para</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">tossir; e &#160;continuo a escrever de boca aberta para respirar. E falam-me em belezas da</span></font></font></p>
<p align="left"><font face="Arial"><font face="Arial"><span style="COLOR: #111111">patologia&#8230; Francamente eu prefiro as belezas da Batalha de Avaí.</p>
<p></span></p>
<p>
*Fonte: www.dominiopublico.gov.br</p>
<p>
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<p></strong></font></font></p>
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		</item>
		<item>
		<title>S. Pedro e S. Paulo</title>
		<link>http://escutaze-machado.blog.com/2008/09/02/s-pedro-e-s-paulo/</link>
		<comments>http://escutaze-machado.blog.com/2008/09/02/s-pedro-e-s-paulo/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 01 Sep 2008 23:27:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JLT</dc:creator>
		
		<guid isPermaLink="false"></guid>
		<description><![CDATA[<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><br />
<font face="Verdana">[10 julho]</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">S. Pedro, apóstolo da circuncisão, e S. Paulo, apóstolo de outra cousa, que a Igreja Católica traduziu por gentes, e que não é preciso dizer pelo seu nome, dominaram tudo esta semana.<br />
<br />
Eu, quando vejo um ou dous assuntos puxarem para si todo o cobertor da atenção pública, deixando os outros ao relento, dá-me vontade de os meter nos bastidores, trazendo à cena tão-somente a arraia-miúda, as pobres ocorrências de nada, a velha anedota, o sopapo casual, o furto, a facada anônima, a estatística mortuária, as tentativas de suicídio. O cocheiro que foge, o noticiário, em suma.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">É que eu sou justo, e não posso ver o fraco esmagado pelo forte. Além disso, nasci com certo orgulho, que já agora há de morrer comigo. Não gosto que os fatos nem os homens se me imponham por si mesmos.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">Tenho horror a toda superioridade. Eu é que os hei de enfeitar com dous ou três adjetivos, uma reminiscência clássica, e os mais galões de estilo. Os fatos, eu é que os hei de declarar transcendentes; os homens, eu é que os hei de aclamar extraordinários.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">Daí o meu amor às chamadas chapas. Orador que me quiser ver aplaudi-lo, há de empregar dessas belas frases feitas, que, já estando em mim, ecoam de tal maneira, que me parece que eu é que sou o orador.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">Então, sim, senhor, todo eu sou mãos, todo eu sou boca, para bradar e palmear. Bem sei que não é chapisca quem quer. A educação faz bons chapiscas, mas não os faz sublimes. Aprendem-se as chapas, é verdade, como Rafael aprendeu as tintas e os pincéis; mas só a vocação faz a Madona e um grande discurso.<br />
<br />
Todos podem dizer que "a liberdade é como a fênix, que renasce das próprias cinzas"; mas só o chapisca sabe acomodar esta frase em fina moldura. Que dificuldade há em repetir que "a imprensa, como a lança de Télefo, cura as feridas que faz"? Nenhum; mas a questão não é de ter facilidade, é de ter graça.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">E depois, se há chapas anteriores, frases servidas, idéias enxovalhadas, há também (e nisto se conhece o gênio) muitas frases que nunca ninguém proferiu, e nascem já com cabelos brancos. Esta invenção de chapas originais distingue mais positivamente o chapisca nato do chapisca por educação.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">Voltemos aos apóstolos. Que direito tinha S. Pedro de dominar os acontecimentos da semana? Estava escrito que ele negaria três vezes o divino Mestre, antes de cantar o galo. Cantou o galo, quando acabava de o negar pela terceira vez, e reconheceu a verdade da profecia.<br />
<br />
Quanto a S. Paulo, tendo ensinado a palavra divina às igrejas de Sicília, de Gênova e de Nápoles, viu que alguns a sublevaram para torná-las ao pecado (ou para outra cousa), e lançou uma daquelas suas epístolas exortativas; concluindo tudo por ser levado o conflito a Roma e a Jerusalém, onde os magistrados e doutores da lei estudavam a verdade das cousas.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">São negócios graves, convenho; mas há outros que, por serem leves, não merecem menos. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, deu-se uma pequena divergência. de que apenas tive vaga notícia, por não poder ler, como não posso escrever; o que os senhores estão lendo, vai saindo a olhos fechados.<br />
<br />
Ah! meus caros amigos! Ando com uma vista (isto é grego; em português diz-se um olho) muito inflamada, a ponto de não poder ler nem escrever. Ouvi que na Câmara surdiu divergência entre a maioria e a minoria, por causa da anistia.<br />
<br />
A questão rimava nas palavras, mas não rimava nos espíritos. Daí confusão, difusão, abstenção. Dizem que um jornal chamou ao caso um beco sem saída; mas um amigo meu (pessoa dada a aventuras amorosas) diz-me que todo beco tem saída; em caso de fuga, salta-se por cima do muro, trepa-se ao morro próximo, ou cai-se do outro lado. Coragem e pernas. Não entendi nada.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">A falta de olhos é tudo. Quando a gente lê por olhos estranhos entende mal as cousas. Assim é que, por telegrama, sabe-se aqui haver o governador de um Estado presidido à extração da loteria; depois, supus que o ato fora praticado para o fim de inspirar confiança aos compradores de bilhetes<br />
<br />
A&#160;segunda hipótese é a verdadeira, acudiu o amigo que me lia os jornais. Não vê como as agências sérias são obrigadas a mandar anunciar que, se as loterias não correrem no dia marcado, pagarão os bilhetes pelo dobro?</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">— É verdade, tenho visto.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">— Pois é isto. Ninguém confia em ninguém, e é o nosso mal. Se há quem desconfie de mim!</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">— Não me diga isso</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">— Não lhe digo outra cousa. Desconfiam que não ponho o selo integral aos meus papéis: é verdade ( e não sou único ); mas, além de que revalido sempre o selo quando é necessário levar os papéis a juízo, a quem prejudico eu, tirando ao Estado? A mim mesmo, porque o tesouro, nos governos modernos, é de todos nós. Verdadeiramente, tiro de um bolso para meter no outro. Luís XIV dizia: "O Estado sou eu!"</font></font></p>
<p style="FONT-SIZE: 14px" align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font style="FONT-SIZE: 12px" face="Verdana">"Cada um de nós é um tronco miúdo de Luís XIV, com a diferença de que nós pagamos os impostos, e Luís XIV recebia-os... Pois desconfiam de mim! São capazes de desconfiar do diabo. Creio que começo a escrever no ar e ...<br />
<br />
<br />
<br />
<br />
<br />
<br />
fonte: dominiopublico.gov.br<br />
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<br /></font></font></p>

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><br />
<font face="Verdana">[10 julho]</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">S. Pedro, apóstolo da circuncisão, e S. Paulo, apóstolo de outra cousa, que a Igreja Católica traduziu por gentes, e que não é preciso dizer pelo seu nome, dominaram tudo esta semana.</p>
<p>Eu, quando vejo um ou dous assuntos puxarem para si todo o cobertor da atenção pública, deixando os outros ao relento, dá-me vontade de os meter nos bastidores, trazendo à cena tão-somente a arraia-miúda, as pobres ocorrências de nada, a velha anedota, o sopapo casual, o furto, a facada anônima, a estatística mortuária, as tentativas de suicídio. O cocheiro que foge, o noticiário, em suma.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">É que eu sou justo, e não posso ver o fraco esmagado pelo forte. Além disso, nasci com certo orgulho, que já agora há de morrer comigo. Não gosto que os fatos nem os homens se me imponham por si mesmos.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">Tenho horror a toda superioridade. Eu é que os hei de enfeitar com dous ou três adjetivos, uma reminiscência clássica, e os mais galões de estilo. Os fatos, eu é que os hei de declarar transcendentes; os homens, eu é que os hei de aclamar extraordinários.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">Daí o meu amor às chamadas chapas. Orador que me quiser ver aplaudi-lo, há de empregar dessas belas frases feitas, que, já estando em mim, ecoam de tal maneira, que me parece que eu é que sou o orador.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">Então, sim, senhor, todo eu sou mãos, todo eu sou boca, para bradar e palmear. Bem sei que não é chapisca quem quer. A educação faz bons chapiscas, mas não os faz sublimes. Aprendem-se as chapas, é verdade, como Rafael aprendeu as tintas e os pincéis; mas só a vocação faz a Madona e um grande discurso.</p>
<p>Todos podem dizer que &#8220;a liberdade é como a fênix, que renasce das próprias cinzas&#8221;; mas só o chapisca sabe acomodar esta frase em fina moldura. Que dificuldade há em repetir que &#8220;a imprensa, como a lança de Télefo, cura as feridas que faz&#8221;? Nenhum; mas a questão não é de ter facilidade, é de ter graça.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">E depois, se há chapas anteriores, frases servidas, idéias enxovalhadas, há também (e nisto se conhece o gênio) muitas frases que nunca ninguém proferiu, e nascem já com cabelos brancos. Esta invenção de chapas originais distingue mais positivamente o chapisca nato do chapisca por educação.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">Voltemos aos apóstolos. Que direito tinha S. Pedro de dominar os acontecimentos da semana? Estava escrito que ele negaria três vezes o divino Mestre, antes de cantar o galo. Cantou o galo, quando acabava de o negar pela terceira vez, e reconheceu a verdade da profecia.</p>
<p>Quanto a S. Paulo, tendo ensinado a palavra divina às igrejas de Sicília, de Gênova e de Nápoles, viu que alguns a sublevaram para torná-las ao pecado (ou para outra cousa), e lançou uma daquelas suas epístolas exortativas; concluindo tudo por ser levado o conflito a Roma e a Jerusalém, onde os magistrados e doutores da lei estudavam a verdade das cousas.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">São negócios graves, convenho; mas há outros que, por serem leves, não merecem menos. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, deu-se uma pequena divergência. de que apenas tive vaga notícia, por não poder ler, como não posso escrever; o que os senhores estão lendo, vai saindo a olhos fechados.</p>
<p>Ah! meus caros amigos! Ando com uma vista (isto é grego; em português diz-se um olho) muito inflamada, a ponto de não poder ler nem escrever. Ouvi que na Câmara surdiu divergência entre a maioria e a minoria, por causa da anistia.</p>
<p>A questão rimava nas palavras, mas não rimava nos espíritos. Daí confusão, difusão, abstenção. Dizem que um jornal chamou ao caso um beco sem saída; mas um amigo meu (pessoa dada a aventuras amorosas) diz-me que todo beco tem saída; em caso de fuga, salta-se por cima do muro, trepa-se ao morro próximo, ou cai-se do outro lado. Coragem e pernas. Não entendi nada.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">A falta de olhos é tudo. Quando a gente lê por olhos estranhos entende mal as cousas. Assim é que, por telegrama, sabe-se aqui haver o governador de um Estado presidido à extração da loteria; depois, supus que o ato fora praticado para o fim de inspirar confiança aos compradores de bilhetes</p>
<p>A&#160;segunda hipótese é a verdadeira, acudiu o amigo que me lia os jornais. Não vê como as agências sérias são obrigadas a mandar anunciar que, se as loterias não correrem no dia marcado, pagarão os bilhetes pelo dobro?</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">— É verdade, tenho visto.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">— Pois é isto. Ninguém confia em ninguém, e é o nosso mal. Se há quem desconfie de mim!</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">— Não me diga isso</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">— Não lhe digo outra cousa. Desconfiam que não ponho o selo integral aos meus papéis: é verdade ( e não sou único ); mas, além de que revalido sempre o selo quando é necessário levar os papéis a juízo, a quem prejudico eu, tirando ao Estado? A mim mesmo, porque o tesouro, nos governos modernos, é de todos nós. Verdadeiramente, tiro de um bolso para meter no outro. Luís XIV dizia: &#8220;O Estado sou eu!&#8221;</font></font></p>
<p style="FONT-SIZE: 14px" align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font style="FONT-SIZE: 12px" face="Verdana">&#8220;Cada um de nós é um tronco miúdo de Luís XIV, com a diferença de que nós pagamos os impostos, e Luís XIV recebia-os&#8230; Pois desconfiam de mim! São capazes de desconfiar do diabo. Creio que começo a escrever no ar e &#8230;</p>
<p>
fonte: dominiopublico.gov.br</p>
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		<title>Telegramas</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Aug 2008 21:16:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JLT</dc:creator>
		
		<guid isPermaLink="false"></guid>
		<description><![CDATA[<p style="FONT-SIZE: 12px" align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><br />
(<font style="FONT-SIZE: 13px" face="Verdana">26 de Junho)<br />
<br />
Um&#160;telegrama conta-nos que alguns clavinoteiros de Canavieiras (Bahia) foram a uma vila próxima e</font> <font face="Verdana">arrebataram duas moças. A gente da vila ia armar-se e assaltar Canavieiras.<br />
<br />
Parece nada, e é Homero; é</font> <font face="Verdana">ainda mais que Homero, que só contou o rapto de uma Helena: aqui são duas.<br />
<br />
Essa luta obscura,</font> <font face="Verdana">escondida no interior da Bahia, foi singular contraste com a outra que se trava no Rio Grande do Sul,</font> <font face="Verdana">onde a causa não é uma, nem duas Helenas, mas um só governo político.<br />
&#160;<br />
Apuradas as contas, vem a dar</font> <font face="Verdana">nesta velha verdade que o amor e o poder são as duas forças principais da terra.<br />
<br />
Duas vilas disputam a</font> <font face="Verdana">posse de duas moças; Bagé luta com Porto Alegre pelo direito do mando. É a mesma Ilíada.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">Dizem telegramas de S. Paulo que foi ali achado, em certa casa que se demolia, um esqueleto algemado.<br /></font> <font face="Verdana"><br />
Não tenho amor a esqueletos; mas este esqueleto algemado diz-me alguma cousa, e é difícil que eu o</font> <font face="Verdana">mandasse embora, sem três ou quatro perguntas.<br />
<br />
Talvez ele me contasse uma história grave, longa e</font> <font face="Verdana">naturalmente triste, por-que as algemas não são alegres.<br />
<br />
Alegres eram umas máscaras de lata que vi em</font> <font face="Verdana">pequeno na cara de escravos dados à cachaça; alegres ou grotescas, não sei bem, porque lá vão muitos</font> <font face="Verdana">anos, e eu era tão criança, que não distinguia bem.<br />
&#160;<br />
A verdade é que as máscaras faziam rir, mais que as do</font> <font face="Verdana">recente carnaval. O ferro das algemas, sendo mais duro que a lata, a história devia ser mais sombria.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">Há um telegrama... Diabo! acabou-se o espaço, e ainda aqui tenho uma dúzia. Cesta com eles!<br />
<br />
Vão para</font> <font face="Verdana">onde foi a questão do benzimento da bandeira, os guarda-livros que fogem levando a caixa (outro</font> <font face="Verdana">telegrama), e o resto dos restos, que não dura mais de uma semana, nem tanto.<br />
<br />
Vão para onde já foi esta</font> <font face="Verdana">crônica. Fale o leitor a sua verdade. E diga-me se lhe ficou alguma cousa do que acabou de ler.<br />
<br />
Talvez</font> <font style="FONT-SIZE: 12px" face="Verdana">uma só, a palavra clavinoteiros, que parece exprimir um costume ou um ofício. Cá vai para o vocabulário.<br />
<br />
<br />
<br />
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<br />
(Fonte: www.dominiopublico.gov.br)<br />
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<p style="FONT-SIZE: 12px" align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><br />
(<font style="FONT-SIZE: 13px" face="Verdana">26 de Junho)</p>
<p>Um&#160;telegrama conta-nos que alguns clavinoteiros de Canavieiras (Bahia) foram a uma vila próxima e</font> <font face="Verdana">arrebataram duas moças. A gente da vila ia armar-se e assaltar Canavieiras.</p>
<p>Parece nada, e é Homero; é</font> <font face="Verdana">ainda mais que Homero, que só contou o rapto de uma Helena: aqui são duas.</p>
<p>Essa luta obscura,</font> <font face="Verdana">escondida no interior da Bahia, foi singular contraste com a outra que se trava no Rio Grande do Sul,</font> <font face="Verdana">onde a causa não é uma, nem duas Helenas, mas um só governo político.<br />
&#160;<br />
Apuradas as contas, vem a dar</font> <font face="Verdana">nesta velha verdade que o amor e o poder são as duas forças principais da terra.</p>
<p>Duas vilas disputam a</font> <font face="Verdana">posse de duas moças; Bagé luta com Porto Alegre pelo direito do mando. É a mesma Ilíada.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">Dizem telegramas de S. Paulo que foi ali achado, em certa casa que se demolia, um esqueleto algemado.<br /></font> <font face="Verdana"><br />
Não tenho amor a esqueletos; mas este esqueleto algemado diz-me alguma cousa, e é difícil que eu o</font> <font face="Verdana">mandasse embora, sem três ou quatro perguntas.</p>
<p>Talvez ele me contasse uma história grave, longa e</font> <font face="Verdana">naturalmente triste, por-que as algemas não são alegres.</p>
<p>Alegres eram umas máscaras de lata que vi em</font> <font face="Verdana">pequeno na cara de escravos dados à cachaça; alegres ou grotescas, não sei bem, porque lá vão muitos</font> <font face="Verdana">anos, e eu era tão criança, que não distinguia bem.<br />
&#160;<br />
A verdade é que as máscaras faziam rir, mais que as do</font> <font face="Verdana">recente carnaval. O ferro das algemas, sendo mais duro que a lata, a história devia ser mais sombria.</font></font></p>
<p align="left"><font style="FONT-SIZE: 13px" face="Times-Roman" size="3"><font face="Verdana">Há um telegrama&#8230; Diabo! acabou-se o espaço, e ainda aqui tenho uma dúzia. Cesta com eles!</p>
<p>Vão para</font> <font face="Verdana">onde foi a questão do benzimento da bandeira, os guarda-livros que fogem levando a caixa (outro</font> <font face="Verdana">telegrama), e o resto dos restos, que não dura mais de uma semana, nem tanto.</p>
<p>Vão para onde já foi esta</font> <font face="Verdana">crônica. Fale o leitor a sua verdade. E diga-me se lhe ficou alguma cousa do que acabou de ler.</p>
<p>Talvez</font> <font style="FONT-SIZE: 12px" face="Verdana">uma só, a palavra clavinoteiros, que parece exprimir um costume ou um ofício. Cá vai para o vocabulário.</p>
<p>(Fonte: www.dominiopublico.gov.br)</p>
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		</item>
		<item>
		<title>Demissão do Gabinete Grego</title>
		<link>http://escutaze-machado.blog.com/2008/08/12/demissao-do-gabinete-grego/</link>
		<comments>http://escutaze-machado.blog.com/2008/08/12/demissao-do-gabinete-grego/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 12 Aug 2008 18:48:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JLT</dc:creator>
		
		<guid isPermaLink="false"></guid>
		<description><![CDATA[<b><span style="font-family: Verdana"><font size="3"><br />
<font size="2">Machado de Assis*</font><br /></font></span></b><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span>
<p><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">[26 junho]<br /></span></p>
<span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">''O Ministério grego pediu demissão. O Sr. Tricoupis foi encarregado de</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">organizar novo ministério, que ficou assim composto: Tricoupis, presidente do</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">conselho e Ministro da Fazenda..."<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Basta! Não, não reproduzo este telegrama, que teve mais poder em mim que</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">toda a mole de acontecimentos da semana. O ministério grego pediu demissão!<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Certo, os ministérios são organizados para se demitirem e os ministérios gregos não</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">podem ser, neste ponto, menos ministérios que todos os outros ministérios.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Mas, por Vênus! foi para isso que arrancaram a velha terra às mãos turcas? Foi para isso que os poetas a cantaram, em plena manhã do século, Byron, Hugo, o nosso José</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Bonifácio, autor da bela "Ode aos Gregos"?<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">"Sois helenos! sois homens!" conclui uma de suas estrofes. Homens creio, porque é próprio de homens formar ministérios; mas helenos.<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Sombra de Aristóteles, espectro de Licurgo, de Draco, de Sólon, e tu, justo</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Aristides, apesar do ostracismo, e todos vós, legisladores, chefes de governo ou de</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">exército, filósofos, políticos, acaso sonhastes jamais com esta imensa banalidade de</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">um gabinete que pede demissão?<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Onde estão os homens de Plutarco? Onde vão os deuses de Homero? Que é dos tempos em que Aspásia ensinava retórica aos oradores?— Tudo, tudo passou.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Agora há um parlamento, um rei, um gabinete e um presidente de conselho, o Sr. Tricoupis, que ficou com a pasta da Fazenda.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Ouves bem, sombra de Péricles? Pasta da Fazenda. E notai mais que todos esses</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">movimentos políticos se fazem, metidos os homens em casacas pretas, com sapatos</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">de verniz ou cordovão, ao cabo de moções de desconfiança...<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Oh! mil vezes a dominação turca! Horrível, decerto, mas pitoresca. Aqueles</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">paxás, perseguidores do giaour, eram deliciosos de poesia e terror. Vede se a</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Turquia atual já aceitou ministérios. Um grão-vizir, nomeado pelo padixá, e alguns</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">ajudantes, tudo sem câmara, nem votos. A Rússia também está livre da lepra</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">ocidental.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Tem o niilismo, é verdade; mas não tem o bimetalismo, que passou da</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">América à Europa, onde começa a grassar com intensidade. O niilismo possui a</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">vantagem de matar logo. E depois é misterioso, dramático, épico, lírico, todas as</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">formas da poesia.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Um homem esta jantando tranqüilo, entre uma senhora e uma pilhéria, deita a pilhéria à senhora, e, quando vai a erguer um brinde... estala uma bomba de dinamite. Adeus, homem tranqüilo: adeus, pilhéria; adeus, senhora.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">O niilismo é violento; mas o bimetalismo é pior.<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Do bimetalismo ao nosso velho amigo pluripapelismo não é curta a distancia,</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">mas daqui ao cambio é um passo; pode parecer até que não falei do primeiro senão</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">para dar a volta ao mundo. Engano manifesto. Hoje só trato de telegramas, que aí</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">estão de sobra, norte e sul.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Aqui vêm alguns de Pernambuco, dizendo que as intendências municipais também estão votando moções de confiança e desconfiança política. Haverá quem as censure; eu compreendo-as até certo ponto.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">A moção de confiança, ou desconfiança no passado regímen, era uma ambrosia dos deuses centrais. Era aqui na Câmara dos Deputados, que um honrado membro, quando desconfiava do governo pedia a palavra ao presidente, e, obtida a palavra, erguia-se. Curto ou extenso, mas geralmente tétrico, proferia um discurso em que resumia todos os erros e crimes do ministério, e acabava sacando um papel do bolso. Esse papel era a moção.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">De confidências que recebi, sei que há poucas sensações na vida iguais à que tinha o orador, quando sacava o papel do bolso. A alguns tremiam os dedos. Os olhos percorriam a sala, depois baixavam ao papel e liam o conteúdo. Em seguida a moção era enviada ao presidente, e o orador descia da tribuna, isto é, das pernas que são a única tribuna que há no nosso parlamento, não contando uns dous púlpitos que lá puseram uma vez, e não serviram para nada.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Aí têm o que era a moção. Nunca as assembléias provinciais tiveram esse regalo; menos ainda as tristes câmaras municipais. Mudado o regímen, acabou a moção; mas, não se morre por decreto. A moção não só vive ainda, mas passou dos deuses centrais aos semideuses locais, e viverá algum tempo, até que acabe de todo, se acabar algum dia.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">O caso grego é sintomático; o caso japonês não menos. Há moções japonesas. Quando as houver chinesas, chegou o fim do mundo; não haverá mais que fechar as malas e ir para o diabo.<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">(...)<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><font size="1"><strong>*Extraído do site</strong></font> <a href="http://www.dominiopublico.gov.br/"><font size="1"><strong>www.dominiopublico.gov.br</strong></font></a><br />
<br /></span>
<p><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
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]]></description>
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<font size="2">Machado de Assis*</font><br /></font></span></b><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span></p>
<p><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">[26 junho]<br /></span></p>
<p><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">&#8221;O Ministério grego pediu demissão. O Sr. Tricoupis foi encarregado de</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">organizar novo ministério, que ficou assim composto: Tricoupis, presidente do</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">conselho e Ministro da Fazenda&#8230;&#8221;<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Basta! Não, não reproduzo este telegrama, que teve mais poder em mim que</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">toda a mole de acontecimentos da semana. O ministério grego pediu demissão!<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Certo, os ministérios são organizados para se demitirem e os ministérios gregos não</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">podem ser, neste ponto, menos ministérios que todos os outros ministérios.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Mas, por Vênus! foi para isso que arrancaram a velha terra às mãos turcas? Foi para isso que os poetas a cantaram, em plena manhã do século, Byron, Hugo, o nosso José</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Bonifácio, autor da bela &#8220;Ode aos Gregos&#8221;?<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">&#8220;Sois helenos! sois homens!&#8221; conclui uma de suas estrofes. Homens creio, porque é próprio de homens formar ministérios; mas helenos.<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Sombra de Aristóteles, espectro de Licurgo, de Draco, de Sólon, e tu, justo</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Aristides, apesar do ostracismo, e todos vós, legisladores, chefes de governo ou de</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">exército, filósofos, políticos, acaso sonhastes jamais com esta imensa banalidade de</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">um gabinete que pede demissão?<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Onde estão os homens de Plutarco? Onde vão os deuses de Homero? Que é dos tempos em que Aspásia ensinava retórica aos oradores?— Tudo, tudo passou.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Agora há um parlamento, um rei, um gabinete e um presidente de conselho, o Sr. Tricoupis, que ficou com a pasta da Fazenda.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Ouves bem, sombra de Péricles? Pasta da Fazenda. E notai mais que todos esses</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">movimentos políticos se fazem, metidos os homens em casacas pretas, com sapatos</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">de verniz ou cordovão, ao cabo de moções de desconfiança&#8230;<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Oh! mil vezes a dominação turca! Horrível, decerto, mas pitoresca. Aqueles</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">paxás, perseguidores do giaour, eram deliciosos de poesia e terror. Vede se a</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Turquia atual já aceitou ministérios. Um grão-vizir, nomeado pelo padixá, e alguns</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">ajudantes, tudo sem câmara, nem votos. A Rússia também está livre da lepra</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">ocidental.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Tem o niilismo, é verdade; mas não tem o bimetalismo, que passou da</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">América à Europa, onde começa a grassar com intensidade. O niilismo possui a</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">vantagem de matar logo. E depois é misterioso, dramático, épico, lírico, todas as</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">formas da poesia.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Um homem esta jantando tranqüilo, entre uma senhora e uma pilhéria, deita a pilhéria à senhora, e, quando vai a erguer um brinde&#8230; estala uma bomba de dinamite. Adeus, homem tranqüilo: adeus, pilhéria; adeus, senhora.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">O niilismo é violento; mas o bimetalismo é pior.<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Do bimetalismo ao nosso velho amigo pluripapelismo não é curta a distancia,</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">mas daqui ao cambio é um passo; pode parecer até que não falei do primeiro senão</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">para dar a volta ao mundo. Engano manifesto. Hoje só trato de telegramas, que aí</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">estão de sobra, norte e sul.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Aqui vêm alguns de Pernambuco, dizendo que as intendências municipais também estão votando moções de confiança e desconfiança política. Haverá quem as censure; eu compreendo-as até certo ponto.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">A moção de confiança, ou desconfiança no passado regímen, era uma ambrosia dos deuses centrais. Era aqui na Câmara dos Deputados, que um honrado membro, quando desconfiava do governo pedia a palavra ao presidente, e, obtida a palavra, erguia-se. Curto ou extenso, mas geralmente tétrico, proferia um discurso em que resumia todos os erros e crimes do ministério, e acabava sacando um papel do bolso. Esse papel era a moção.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">De confidências que recebi, sei que há poucas sensações na vida iguais à que tinha o orador, quando sacava o papel do bolso. A alguns tremiam os dedos. Os olhos percorriam a sala, depois baixavam ao papel e liam o conteúdo. Em seguida a moção era enviada ao presidente, e o orador descia da tribuna, isto é, das pernas que são a única tribuna que há no nosso parlamento, não contando uns dous púlpitos que lá puseram uma vez, e não serviram para nada.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Aí têm o que era a moção. Nunca as assembléias provinciais tiveram esse regalo; menos ainda as tristes câmaras municipais. Mudado o regímen, acabou a moção; mas, não se morre por decreto. A moção não só vive ainda, mas passou dos deuses centrais aos semideuses locais, e viverá algum tempo, até que acabe de todo, se acabar algum dia.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">O caso grego é sintomático; o caso japonês não menos. Há moções japonesas. Quando as houver chinesas, chegou o fim do mundo; não haverá mais que fechar as malas e ir para o diabo.<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">(&#8230;)<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><font size="1"><strong>*Extraído do site</strong></font> <a href="http://www.dominiopublico.gov.br/"><font size="1"><strong>www.dominiopublico.gov.br</strong></font></a></p>
<p></span></p>
<p><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"></p>
<p><a href="http://escutaze.blog.com"><strong><font color="#800000">Voltar para a&#160;página principal do blog EscutaZé!</font></strong></a>&#160;</span></p>
</div>
<div></div>
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		<title>Tiradentes</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Aug 2008 23:44:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JLT</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[<div style="text-align: left"><font face="Arial"><font size="2" face="verdana,geneva"><font face="Arial"><font size="2" face="verdana,geneva"><strong><br />
Machado de Assis*</strong><br />
<br />
1892/24 de abril<br />
<br /></font><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Na Segunda-feira da semana que findou, acordei cedo, pouco depois das</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">galinhas, e dei-me ao gosto de propor a mim mesmo um problema. Verdadeiramente</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">era uma charada, mas o nome de problema dá dignidade, e excita para logo a atenção dos leitores austeros.<br />
<br />
Sou como as atrizes, que já não fazem benefício, mas festa artística. A cousa é a mesma, os bilhetes crescem de igual modo, seja em</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">número, seja em preço; o resto, comédia, drama, opereta, uma polca entre dous atos, uma poesia, várias ramalhetes, lampiões fora, e os colegas em grande gala,</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">oferecendo em cena o retrato à beneficiada.</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Arial"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Tudo pede certa elevação. Conheci dous velhos estimáveis, vizinhos, que esses tinham todos os dias a sua festa artística. Um era Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços em relação à guerra do Paraguai; o outro tinha o posto de tenente da guarda nacional da reserva, a que prestava bons serviços.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Jogavam xadrez, e dormiam no intervalo das jogadas. Despertavam-se um ao outro desta maneira: "Caro major!" -"Pronto, comendador!" — Variavam às vezes: — "Caro comendador!" —"Aí vou, Major".&#160;<span>&#160;</span><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Tudo pede certa elevação. Para não ir mais longe. Tiradentes. Aqui está um exemplo. Tivemos esta semana o centenário do grande mártir. A prisão do heróico alferes é das que devem</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">ser comemoradas por todos os filhos deste país, se há nele patriotismo, ou se esse patriotismo é outra cousa mais que um simples motivo de palavras grossas e rotundas.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
A capital portou-se bem. Dos Estados estão vindo boas notícias. O instinto popular, de acordo com o exame da razão, fez da figura do alferes Xavier o principal</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Arial"><span>&#160;</span></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">dos Inconfidentes, e colocou os seus parceiros a meia ração da glória. Merecem,</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">decerto, a nossa estimação aqueles outros; eram patriotas.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Mas o que se ofereceu a carregar com os pecados de Israel, o que chorou de alegria quando viu comutada a pena de morte dos seus companheiros, pena que só ia ser executada nele, o</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">enforcado, o esquartejado. o decapitado, esse tem de receber o prêmio na</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">proporção do martírio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos.</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Arial"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Um dos oradores do dia 21 observou que se a Inconfidência tem vencido, os cargos iam para os outros conjurados, não para o alferes. Pois não é muito que, não tendo vencido, a história lhe dê a principal cadeira. A distribuição é justa. Os outros</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">têm ainda um belo papel; formam, em torno de Tiradentes , um coro igual ao das</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Oceânides diante de Prometeu encadeado.<br />
<br />
Relede Esquilo, amigo leitor. Escutai a linguagem compassiva das ninfas, escutai os gritos terríveis, quando o grande titão é envolvido na conflagração geral das cousas. Mas, principalmente, ouvi as palavras de Prometeu narrando os seus crimes às ninfas amadas: "Dei o fogo aos homens; esse mestre lhes ensinará todas as</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">artes". Foi o que nos fez Tiradentes.</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Arial"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Entretanto, o alferes Joaquim José tem ainda contra si uma cousa a alcunha. Há pessoas que o amam, que o admiram, patrióticas e humanas, mas que não</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">podem tolerar esse nome de Tiradentes. Certamente que o tempo trará a</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">familiaridade do nome e a harmonia das sílabas; imaginemos, porém, que o alferes</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">tem podido galgar pela imaginação um século e despachar-se cirurgião — dentista.<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Era o mesmo herói, e o ofício era o mesmo; mas traria outra dignidade. Podia ser até que, com o tempo, viesse a perder a segunda parte, dentista, e quedar-se apenas cirurgião.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Há muitos anos, um rapaz—por sinal que bonito—estava para casar com uma linda moça—a aprazimento de todos, pais e mães, irmãos, tios e primos. Mas o noivo demorava o consórcio; adiava de um sábado para outro, depois quinta-feira, logo terça, mais tarde sábado;—dou meses de espera.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Ao fim desse tempo, o futuro sogro comunicou à mulher os seus receios. Talvez o rapaz não quisesse casar. A sogra, que antes de o ser já era, pegou o pau moral, e foi ter com o esquisito genro.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Que histórias eram aquelas de adiamento?<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
—Perdão, minha senhora, é uma nobre e alta razão; espero apenas ...<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
—Apenas...?<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
—Apenas o meu título de agrimensor.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
—De agrimensor? Mas quem lhe diz que minha filha precisa do seu ofício para comer? Case, que não morrerá de fome; o título virá depois.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
—Perdão, mas não é pelo título de agrimensor, propriamente dito, que estou demorando o casamento. Lá na roça dá-se ao agrimensor, por cortesia, o título de doutor, e eu quisera casar já doutor ...<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Sogra, sogro, noiva, parentes, todos entenderam esta sutileza, e aprovaram o moço. Em boa hora o fizeram. Dali a três meses recebia o noivo os títulos de agrimensor, de doutor e de marido.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Daqui ao caso eleitoral é menos que um passo; mas, não entendendo eu de política, ignoro se a ausência de tão grande parte do eleitorado na eleição do dia 20 quer dizer descrença, como afirmam uns, ou abstenção como outros juram.<br />
<br />
A descrença é fenômeno alheio à vontade do eleitor: a abstenção é propósito. Há quem não veja em tudo isto mais de ignorância do poder daquele fogo que Tiradentes legou aos seus patrícios.<br />
<br />
O que sei, é que fui à minha seção para votar, mas achei a porta fechada e a urna na rua, com os livros e ofícios. Outra casa os acolheu compassiva, mas os mesários não tinham sido avisados e os eleitores eram cinco.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Discutimos a questão de saber o que é que nasceu primeiro, se a galinha, se o ovo. Era o problema, a charada, a adivinhação de segunda-feira. Dividiram-se as opiniões; uns foram pelo ovo outros pela galinha; o próprio galo teve um voto.<br />
<br />
Os candidatos é que não tiveram nem um, porque os mesários não vieram e bateram dez horas. Podia acabar em prosa, mas prefiro o verso:<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana" lang="FR" xml:lang="FR"><br />
Sara, belle d'indolence/</span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana" lang="FR" xml:lang="FR">Se balance/</span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana" lang="FR" xml:lang="FR">Dans un hamac...<br /></span></font></font></font>
<p style="text-align: left"><font face="Arial"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<br />
<br />
<font size="1">*Texto extraído do site</font> <a href="http://www.dominiopublico.gov.br/"><font size="1">www.dominiopublico.gov.br</font></a><font size="1"><br />
<br /></font><font size="2" color="#FF0000"><br />
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<br /></strong></a><br /></font></font></font></p>
</div>

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<div style="text-align: left"><font face="Arial"><font size="2" face="verdana,geneva"><font face="Arial"><font size="2" face="verdana,geneva"><strong><br />
Machado de Assis*</strong></p>
<p>1892/24 de abril</p>
<p></font><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Na Segunda-feira da semana que findou, acordei cedo, pouco depois das</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">galinhas, e dei-me ao gosto de propor a mim mesmo um problema. Verdadeiramente</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">era uma charada, mas o nome de problema dá dignidade, e excita para logo a atenção dos leitores austeros.</p>
<p>Sou como as atrizes, que já não fazem benefício, mas festa artística. A cousa é a mesma, os bilhetes crescem de igual modo, seja em</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">número, seja em preço; o resto, comédia, drama, opereta, uma polca entre dous atos, uma poesia, várias ramalhetes, lampiões fora, e os colegas em grande gala,</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">oferecendo em cena o retrato à beneficiada.</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Arial"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Tudo pede certa elevação. Conheci dous velhos estimáveis, vizinhos, que esses tinham todos os dias a sua festa artística. Um era Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços em relação à guerra do Paraguai; o outro tinha o posto de tenente da guarda nacional da reserva, a que prestava bons serviços.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Jogavam xadrez, e dormiam no intervalo das jogadas. Despertavam-se um ao outro desta maneira: &#8220;Caro major!&#8221; -&#8221;Pronto, comendador!&#8221; — Variavam às vezes: — &#8220;Caro comendador!&#8221; —&#8221;Aí vou, Major&#8221;.&#160;<span>&#160;</span><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Tudo pede certa elevação. Para não ir mais longe. Tiradentes. Aqui está um exemplo. Tivemos esta semana o centenário do grande mártir. A prisão do heróico alferes é das que devem</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">ser comemoradas por todos os filhos deste país, se há nele patriotismo, ou se esse patriotismo é outra cousa mais que um simples motivo de palavras grossas e rotundas.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
A capital portou-se bem. Dos Estados estão vindo boas notícias. O instinto popular, de acordo com o exame da razão, fez da figura do alferes Xavier o principal</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Arial"><span>&#160;</span></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">dos Inconfidentes, e colocou os seus parceiros a meia ração da glória. Merecem,</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">decerto, a nossa estimação aqueles outros; eram patriotas.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Mas o que se ofereceu a carregar com os pecados de Israel, o que chorou de alegria quando viu comutada a pena de morte dos seus companheiros, pena que só ia ser executada nele, o</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">enforcado, o esquartejado. o decapitado, esse tem de receber o prêmio na</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">proporção do martírio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos.</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Arial"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Um dos oradores do dia 21 observou que se a Inconfidência tem vencido, os cargos iam para os outros conjurados, não para o alferes. Pois não é muito que, não tendo vencido, a história lhe dê a principal cadeira. A distribuição é justa. Os outros</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">têm ainda um belo papel; formam, em torno de Tiradentes , um coro igual ao das</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">Oceânides diante de Prometeu encadeado.</p>
<p>Relede Esquilo, amigo leitor. Escutai a linguagem compassiva das ninfas, escutai os gritos terríveis, quando o grande titão é envolvido na conflagração geral das cousas. Mas, principalmente, ouvi as palavras de Prometeu narrando os seus crimes às ninfas amadas: &#8220;Dei o fogo aos homens; esse mestre lhes ensinará todas as</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">artes&#8221;. Foi o que nos fez Tiradentes.</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Arial"><br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Entretanto, o alferes Joaquim José tem ainda contra si uma cousa a alcunha. Há pessoas que o amam, que o admiram, patrióticas e humanas, mas que não</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">podem tolerar esse nome de Tiradentes. Certamente que o tempo trará a</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">familiaridade do nome e a harmonia das sílabas; imaginemos, porém, que o alferes</span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">tem podido galgar pela imaginação um século e despachar-se cirurgião — dentista.<br /></span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Era o mesmo herói, e o ofício era o mesmo; mas traria outra dignidade. Podia ser até que, com o tempo, viesse a perder a segunda parte, dentista, e quedar-se apenas cirurgião.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Há muitos anos, um rapaz—por sinal que bonito—estava para casar com uma linda moça—a aprazimento de todos, pais e mães, irmãos, tios e primos. Mas o noivo demorava o consórcio; adiava de um sábado para outro, depois quinta-feira, logo terça, mais tarde sábado;—dou meses de espera.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Ao fim desse tempo, o futuro sogro comunicou à mulher os seus receios. Talvez o rapaz não quisesse casar. A sogra, que antes de o ser já era, pegou o pau moral, e foi ter com o esquisito genro.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Que histórias eram aquelas de adiamento?<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
—Perdão, minha senhora, é uma nobre e alta razão; espero apenas &#8230;<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
—Apenas&#8230;?<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
—Apenas o meu título de agrimensor.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
—De agrimensor? Mas quem lhe diz que minha filha precisa do seu ofício para comer? Case, que não morrerá de fome; o título virá depois.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
—Perdão, mas não é pelo título de agrimensor, propriamente dito, que estou demorando o casamento. Lá na roça dá-se ao agrimensor, por cortesia, o título de doutor, e eu quisera casar já doutor &#8230;<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Sogra, sogro, noiva, parentes, todos entenderam esta sutileza, e aprovaram o moço. Em boa hora o fizeram. Dali a três meses recebia o noivo os títulos de agrimensor, de doutor e de marido.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Daqui ao caso eleitoral é menos que um passo; mas, não entendendo eu de política, ignoro se a ausência de tão grande parte do eleitorado na eleição do dia 20 quer dizer descrença, como afirmam uns, ou abstenção como outros juram.</p>
<p>A descrença é fenômeno alheio à vontade do eleitor: a abstenção é propósito. Há quem não veja em tudo isto mais de ignorância do poder daquele fogo que Tiradentes legou aos seus patrícios.</p>
<p>O que sei, é que fui à minha seção para votar, mas achei a porta fechada e a urna na rua, com os livros e ofícios. Outra casa os acolheu compassiva, mas os mesários não tinham sido avisados e os eleitores eram cinco.<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />
Discutimos a questão de saber o que é que nasceu primeiro, se a galinha, se o ovo. Era o problema, a charada, a adivinhação de segunda-feira. Dividiram-se as opiniões; uns foram pelo ovo outros pela galinha; o próprio galo teve um voto.</p>
<p>Os candidatos é que não tiveram nem um, porque os mesários não vieram e bateram dez horas. Podia acabar em prosa, mas prefiro o verso:<br /></span> <span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana" lang="FR" xml:lang="FR"><br />
Sara, belle d&#8217;indolence/</span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana" lang="FR" xml:lang="FR">Se balance/</span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana" lang="FR" xml:lang="FR">Dans un hamac&#8230;<br /></span></font></font></font></p>
<p style="text-align: left"><font face="Arial"><font size="2" face="verdana,geneva"></p>
<p>
<font size="1">*Texto extraído do site</font> <a href="http://www.dominiopublico.gov.br/"><font size="1">www.dominiopublico.gov.br</font></a><font size="1"></p>
<p></font><font size="2" color="#FF0000"><br />
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<p></strong></a><br /></font></font></font></p>
</div>
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<div></div>
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		<title>Abolição</title>
		<link>http://escutaze-machado.blog.com/2008/07/21/abolicao/</link>
		<comments>http://escutaze-machado.blog.com/2008/07/21/abolicao/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 20 Jul 2008 22:25:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JLT</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[<strong><font size="2"><br />
Machado de Assis*<br />
<br /></font></strong>
<div style="text-align: justify">
<p><font face="verdana,geneva"><font size="2" color="#000000" face="verdana,geneva">Bons dias!<br />
<br /></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">Eu pertenço a uma família de profetas <i>après coup, post factum,</i> depois do gato morto, ou como melhor</font> <font size="2" face="verdana,geneva">nome tenha em holandês. Por isso digo, juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio</font> <font size="2" face="verdana,geneva">estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos.<br />
<br />
Alforriá-lo era nada; entendi que,</font> <font size="2" face="verdana,geneva">perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.</font> <font size="2" face="verdana,geneva">Neste jantar, a&#160; que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco</font> <font size="2" face="verdana,geneva">pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto</font> <font size="2" face="verdana,geneva">simbólico.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">No golpe do meio <i>(coupe do milieu,</i> mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de c</font></font><font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">hampanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos restituía a</font> <font size="2" face="verdana,geneva">liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia a que a nação inteira devia acompanhar as mesmas</font> <font size="2" face="verdana,geneva">idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não</font></font> <font size="2" color="#000000" face="verdana,geneva">podiam roubar sem pecado.<br /></font><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">meus amigos (creio que e ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembéia que</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas.<br />
<br />
Ouvi cabisbaixo: fiz</font> <font size="2" face="verdana,geneva">outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos derramaram as</font> <font size="2" face="verdana,geneva">lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão</font> <font size="2" face="verdana,geneva">pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">- Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado,</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">um ordenado que...</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">- Oh! meu senhô! fico...<br /></font></font><font color="#000000">&#160;</font><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">- Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente.</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje, estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais</font> <font size="2" face="verdana,geneva">alto quatro dedos...</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">- Artura não qué dizê nada, não, senhô...</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">- Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">vales muito mais que uma galinha.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">- Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia</font> <font size="2" face="verdana,geneva">anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram</font> <font size="2" face="verdana,geneva">dois estados naturais, quase divinos.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">puxão de orelhas e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe</font> <font size="2" face="verdana,geneva">humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que,</font></font><font color="#000000">&#160;<font size="2" face="verdana,geneva">antes, muito antes de abolição legal, já eu em casa, na modéstia da familia, libertava um escravo, ato que</font> <font size="2" face="verdana,geneva">comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar,</font> <font size="2" face="verdana,geneva">(simples suposição) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e</font> <font size="2" face="verdana,geneva">verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao</font> <font size="2" face="verdana,geneva">escravo: <i>es livre,</i> antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de</font> <font size="2" face="verdana,geneva">restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">Boas noites!</font></font><br />
<br />
<br />
---<br />
<font size="1">Extraído de:</font> <a href="http://www.dominiopublico.com.br/"><font size="1">www.dominiopublico.com.br</font></a><br /></font></p>
</div>

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><strong><font size="2"><br />
Machado de Assis*</p>
<p></font></strong></p>
<div style="text-align: justify">
<p><font face="verdana,geneva"><font size="2" color="#000000" face="verdana,geneva">Bons dias!</p>
<p></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">Eu pertenço a uma família de profetas <i>après coup, post factum,</i> depois do gato morto, ou como melhor</font> <font size="2" face="verdana,geneva">nome tenha em holandês. Por isso digo, juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio</font> <font size="2" face="verdana,geneva">estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos.</p>
<p>Alforriá-lo era nada; entendi que,</font> <font size="2" face="verdana,geneva">perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.</font> <font size="2" face="verdana,geneva">Neste jantar, a&#160; que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco</font> <font size="2" face="verdana,geneva">pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto</font> <font size="2" face="verdana,geneva">simbólico.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">No golpe do meio <i>(coupe do milieu,</i> mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de c</font></font><font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">hampanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos restituía a</font> <font size="2" face="verdana,geneva">liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia a que a nação inteira devia acompanhar as mesmas</font> <font size="2" face="verdana,geneva">idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não</font></font> <font size="2" color="#000000" face="verdana,geneva">podiam roubar sem pecado.<br /></font><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">meus amigos (creio que e ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembéia que</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas.</p>
<p>Ouvi cabisbaixo: fiz</font> <font size="2" face="verdana,geneva">outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos derramaram as</font> <font size="2" face="verdana,geneva">lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão</font> <font size="2" face="verdana,geneva">pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">- Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado,</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">um ordenado que&#8230;</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">- Oh! meu senhô! fico&#8230;<br /></font></font><font color="#000000">&#160;</font><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">- Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente.</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje, estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais</font> <font size="2" face="verdana,geneva">alto quatro dedos&#8230;</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">- Artura não qué dizê nada, não, senhô&#8230;</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">- Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">vales muito mais que uma galinha.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">- Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia</font> <font size="2" face="verdana,geneva">anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram</font> <font size="2" face="verdana,geneva">dois estados naturais, quase divinos.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro</font></font> <font color="#000000"><font size="2" face="verdana,geneva">puxão de orelhas e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe</font> <font size="2" face="verdana,geneva">humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que,</font></font><font color="#000000">&#160;<font size="2" face="verdana,geneva">antes, muito antes de abolição legal, já eu em casa, na modéstia da familia, libertava um escravo, ato que</font> <font size="2" face="verdana,geneva">comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar,</font> <font size="2" face="verdana,geneva">(simples suposição) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e</font> <font size="2" face="verdana,geneva">verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao</font> <font size="2" face="verdana,geneva">escravo: <i>es livre,</i> antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de</font> <font size="2" face="verdana,geneva">restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.</font></font></font></p>
<p><font size="2" face="verdana,geneva"><font size="2" face="verdana,geneva"><br />
<font color="#000000">Boas noites!</font></font></p>
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&#8212;<br />
<font size="1">Extraído de:</font> <a href="http://www.dominiopublico.com.br/"><font size="1">www.dominiopublico.com.br</font></a><br /></font></p>
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